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sábado, 6 de novembro de 2010

De volta

Pois é, grande hiato! Mas hoje voltei, não sei o que me deu, mas "aconteceu-me" uma história (está sem pés nem cabeça, mas tem o resto do corpo :P). E achei que ela ficaria bem aqui, num "cantinho" a que não vinha há muito tempo.

Não peço desculpas, não faço promessas. Nesta etapa quero ir ao sabor do vento e da inspiração, quero estar receptiva ao que vier sem fazer esforços nem reclamações. Que os tesouros dos barcos da imaginação venham, se quiserem; mas, se não quiserem, não os chamarei de volta. São livres!



Poema Quotidiano
O motorista



Não sonhara aquele emprego! Sempre fora humilde nas suas ambições, gostava de sair com os amigos, de conhecer pessoas novas, mas nunca pensou em ir muito longe do lugar onde vivia. Entretanto casara há dois anos, ainda não tinha filhos. Mas era feliz, tinha tudo o que queria. E tinha emprego! Um emprego que não sonhara, mas tinha-o e era feliz.


Um simples motorista tem a função de conduzir outros para os seus empregos, para as suas escolas, para as suas casas. E tem também, claro está, de verificar se os passes já têm a senha do mês, se ninguém entra sem pagar (apesar de, às vezes, lá deixar um velhote ou outro entrar) e se pagam, conferir os trocos, dar trocados.

Simples à primeira vista! Dizemos muitas vezes que a vida é caminho de um só sentido, e não há volta a dar-lhe. Mas o motorista, vai e vem, sempre pela mesma estrada. Talvez não seja bem a mesma, dir-me-á um leitor mais filosófico. Talvez não, dir-lhe-ei. As pessoas não são as mesmas, mas têm a sua rotina e apanham este ou aquele autocarro conforme os seus horários.


Simples à primeira vista! Que pensará o motorista, sentado no seu banco de autocarro enquanto vai conduzindo pela estrada fora, curvas e contra-curvas, semáforos verdes e vermelhos, botões a pedir STOP, portas a abrir e a fechar, pessoas a sair e a entrar, jornais querendo entrar, moedas a suplicarem serem doadas? Que pensará enquanto vai conduzindo um autocarro velho ou novo, conforme o dia?


O autocarro segue a estrada principal, as outras estradas somos nós que as vamos fazendo, antes e depois de entrarmos nele. O motorista não tem escolha, ou pelo menos muito pouca: há caminho que tem de ser percorrido, há paragens onde esperam pessoas para voltar para casa, para irem trabalhar, há semáforos que fazem apostas sobre qual o autocarro que apanhará mais vermelhos numa manhã chuvosa.


Nós temos escolha, antes e depois de sairmos, o caminho é nosso: a cidade abre-se à nossa frente com um número infindável de veias, por qual delas palpita o nosso coração? Para onde nos leva o dever? A consciência? O amor? A saudade? O autocarro leva-nos a nós, por uns tempos, depois a escolha é nossa!

E que responsabilidade! – pensa o motorista. Pensa na sua, não na dos outros, que cada um já tem a sua dose e basta. E leva o dia a percorrer caminhos já conhecidos, a ver passes e bilhetes; já conhece de cor a cor das árvores, a cor da estrada. E faz-lhe confusão como as outras pessoas não o acham pessoa. Entram, mostram o bilhete e já estão de focinho levantado a ver se ainda há lugar para elas, descobrem que aquele “cantinho” onde costumam ficar já está ocupado por uma senhora com cara de antipática ou com um senhor que parece não ser usual naquelas bandas. E ao motorista nem ligam, ele que passe os olhos pelo passe, que eu tenho que passar os olhos pelos assentos. Se apanham o autocarro todos os dias, ainda é mais grave, deviam cumprimentar a pessoa que os leva na estrada principal até chegarem a outra estrada, essa que os levará ao seu destino. Deviam dizer-lhe bom dia ou boa tarde, conforme a hora.


E de vez em quando, o motorista tem uma surpresa: alguém que já o conhece e não apenas o reconhece como a cara de todos dias. Esse alguém que já o conhece, fala com ele, alivia-lhe o silêncio de viajar sozinho. Sozinho porque não tem com quem falar. E nessa solidão, muitos ligam o rádio e quando as pessoas, esses seres estranhos que às vezes nem o reconhecem, falam mais alto, ele aumenta o som, o Benfica está a jogar e ele quer ouvir! Não pelo Benfica, mas pelo outro clube!

Mas este motorista particular tem um prazer especial, que nada tem a ver com futebol. Não é um prazer de conduzir, não sonhara com isso! Nem é necessariamente a responsabilidade de ajudar a levar as pessoas aos seus destinos, é um pouco mais do que isso. Quando às vezes lhe mostram a carteira, ele vê algo mais que a senha do mês, mais do que a fotografia do passageiro, vê para além dele, vê os seus sonhos, os seus cansaços, os seus desejos. Vê a ânsia do estudante quando vai para um teste; vê a preocupação da senhora idosa que não faz ideia como vai subir aqueles degraus, muito menos descê-los; vê o espanto de uma criança na primeira viagem; vê o cansaço de um funcionário, seja quem for, ao final do dia. Do retroprojector, vê esse mesmo estudante a reler uns apontamentos; vê a senhora idosa a olhar a rua e a ver o passado; vê a criança a rir, porque nunca tinha atravessado a ponte; vê o funcionário a descansar os olhos, grato pelo dia que chegou ao fim.

E o motorista fica feliz! Não porque é motorista, mas porque sem saber e sem que os outros o reconheçam, ele interfere na vida das pessoas. O motorista não conduz apenas um autocarro, mas tem a responsabilidade de conduzir as pessoas até à paragem em que querem descer. E depois? – perguntará o leitor, já um pouco impaciente.


Depois, querido leitor, não sei! Já saí na minha paragem, já escolhi a minha estrada e ainda tenho muito que caminhar, para chegar ao meu destino. Queres saber do motorista? Esse continua, tem mais estrada para frente, mais pessoas para ver chegar e partir.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os autocarros não esperam por nós

De facto, é um grande problema que afecta a maior parte de nós. Quantas vezes não vimos já uma pessoa a correr para ir apanhar o autocarro… o autocarro que a levará a horas ao emprego; o autocarro que vai fazer com que não chegue tão atrasada à escola; o autocarro que permite chegar 30 minutos mais cedo a casa (porque o que vem a seguir apanha trânsito!) e estar mais tempo com a família; o autocarro derradeiro, o último dessa noite, desse dia cansativo.
Quantas vezes não o vemos sair, quantas vezes batemos com a cara na porta, quantas vezes o perdemos por um minuto apenas, um segundo… um segundo é muito importante nesta questão dos autocarros! Quem ainda não pediu, diante da porta fechada, permissão para entrar, “por favor!”, “desculpe!”, “abra lá!”… mas a porta fechada não abre… e não temos outro remédio senão esperar por outro ou decidir por outra alternativa.
Nesta coisa dos autocarros só quem não passa por elas, neste caso por eles, é que não compreende. É como aquele poema do Álvaro de Campos: “Mas, afinal, / Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são / Ridículas”. Não é que eu compare as cartas de amor (ou as ditas criaturas) com os autocarros, longe disso. Apenas quero fazer compreender ao meu leitor que só quem vive a situação é que a compreende. Oh, meus queridos leitores! Quem nunca perdeu autocarros?
E o transtorno que isso faz na vida da pessoa!? Não queiram saber… mesmo que esteja um dia com um sol radioso, torna-se péssimo se perdemos o autocarro logo pela manhã. Ficamos transtornados, suados, nervosos, impacientes… já sabemos que o dia vai correr mal… que não devíamos ter saído de casa… que afinal o signo daquele dia estava certo… enfim, o dia fica perdido… O trabalho não fica bem feito, não há concentração no estudo, não se ouve as pessoas, comemos mal (“estou atrasada!”), não vemos a casca da banana e tropeçamos… enfim, tudo pode acontecer se … perdermos o autocarro.

Há uma frase que eu gosto muito, já a disse esta semana a alguém: “Mais vale eu estar preparada e não surgirem oportunidades, do que surgirem oportunidades e eu não estar preparada”. Gosto de pensar assim, que tudo acontece para me preparar para algo que vem depois, bom ou mau. Que aprendo todos os dias, comigo e com os que me rodeiam, sejam mais velhos ou mais novos do que eu. Nesta viagem da vida, em que tropeço constantemente por falta de atenção e talvez por outras coisas que desconheço, preciso de ir apreciando a paisagem, sem pressas de chegar ao meu destino. Ando a correr, quero fazer tudo ao mesmo tempo, mas a flor não cresce num dia.
Isto leva-me a pensar que não vejo todas as oportunidades que se me abrem todos os dias, as janelas e as portas que me levarão para onde possa realizar todas as minhas qualidades e ser feliz, como se tivesse semeado um fruto. Às vezes é um problema de não as querer ver, inclusivamente de fechá-las, porque há coisas mais urgentes no momento… e urgentes não significa essenciais =).
Se houve coisa que aprendi foi a importância de dizer uma palavra, pois posso nunca mais ter a oportunidade de a dizer. Se houve coisa que aprendi foi a importância do abraço e do elogio, pois posso nunca mais ter a oportunidade de abraçar e/ou de elogiar. Se houve coisa que aprendi foi a importância do ser amigo, pois posso nunca mais ter a oportunidade de o demonstrar.
Porque os autocarros, meus queridos leitores, não esperam por nós!!!

Uma boa semana para todos vós.
Bjinhos,

Anita.


P.S.: Este tema foi-me dado numa aula da ginástica… imaginem! De facto é um bom tema e já à umas semanas que me andava a martelar na cabeça. Aqui vos deixo estas linhas na esperança de vos ser útil.