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terça-feira, 18 de novembro de 2008

Os autocarros não esperam por nós

De facto, é um grande problema que afecta a maior parte de nós. Quantas vezes não vimos já uma pessoa a correr para ir apanhar o autocarro… o autocarro que a levará a horas ao emprego; o autocarro que vai fazer com que não chegue tão atrasada à escola; o autocarro que permite chegar 30 minutos mais cedo a casa (porque o que vem a seguir apanha trânsito!) e estar mais tempo com a família; o autocarro derradeiro, o último dessa noite, desse dia cansativo.
Quantas vezes não o vemos sair, quantas vezes batemos com a cara na porta, quantas vezes o perdemos por um minuto apenas, um segundo… um segundo é muito importante nesta questão dos autocarros! Quem ainda não pediu, diante da porta fechada, permissão para entrar, “por favor!”, “desculpe!”, “abra lá!”… mas a porta fechada não abre… e não temos outro remédio senão esperar por outro ou decidir por outra alternativa.
Nesta coisa dos autocarros só quem não passa por elas, neste caso por eles, é que não compreende. É como aquele poema do Álvaro de Campos: “Mas, afinal, / Só as criaturas que nunca escreveram / Cartas de amor / É que são / Ridículas”. Não é que eu compare as cartas de amor (ou as ditas criaturas) com os autocarros, longe disso. Apenas quero fazer compreender ao meu leitor que só quem vive a situação é que a compreende. Oh, meus queridos leitores! Quem nunca perdeu autocarros?
E o transtorno que isso faz na vida da pessoa!? Não queiram saber… mesmo que esteja um dia com um sol radioso, torna-se péssimo se perdemos o autocarro logo pela manhã. Ficamos transtornados, suados, nervosos, impacientes… já sabemos que o dia vai correr mal… que não devíamos ter saído de casa… que afinal o signo daquele dia estava certo… enfim, o dia fica perdido… O trabalho não fica bem feito, não há concentração no estudo, não se ouve as pessoas, comemos mal (“estou atrasada!”), não vemos a casca da banana e tropeçamos… enfim, tudo pode acontecer se … perdermos o autocarro.

Há uma frase que eu gosto muito, já a disse esta semana a alguém: “Mais vale eu estar preparada e não surgirem oportunidades, do que surgirem oportunidades e eu não estar preparada”. Gosto de pensar assim, que tudo acontece para me preparar para algo que vem depois, bom ou mau. Que aprendo todos os dias, comigo e com os que me rodeiam, sejam mais velhos ou mais novos do que eu. Nesta viagem da vida, em que tropeço constantemente por falta de atenção e talvez por outras coisas que desconheço, preciso de ir apreciando a paisagem, sem pressas de chegar ao meu destino. Ando a correr, quero fazer tudo ao mesmo tempo, mas a flor não cresce num dia.
Isto leva-me a pensar que não vejo todas as oportunidades que se me abrem todos os dias, as janelas e as portas que me levarão para onde possa realizar todas as minhas qualidades e ser feliz, como se tivesse semeado um fruto. Às vezes é um problema de não as querer ver, inclusivamente de fechá-las, porque há coisas mais urgentes no momento… e urgentes não significa essenciais =).
Se houve coisa que aprendi foi a importância de dizer uma palavra, pois posso nunca mais ter a oportunidade de a dizer. Se houve coisa que aprendi foi a importância do abraço e do elogio, pois posso nunca mais ter a oportunidade de abraçar e/ou de elogiar. Se houve coisa que aprendi foi a importância do ser amigo, pois posso nunca mais ter a oportunidade de o demonstrar.
Porque os autocarros, meus queridos leitores, não esperam por nós!!!

Uma boa semana para todos vós.
Bjinhos,

Anita.


P.S.: Este tema foi-me dado numa aula da ginástica… imaginem! De facto é um bom tema e já à umas semanas que me andava a martelar na cabeça. Aqui vos deixo estas linhas na esperança de vos ser útil.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Há dias de poesia...

Talvez já seja poesia a mais e trabalho a menos mas há dias assim, em que os poemas vem e vão, em que nos fazem pensar e nos fazem sorrir... é como quando não nos sai uma música da cabeça, uma ideia que temos de verificar, um poema que não aconteceu ou que ficou perdido no caminho... há dias de poesia...


Às vezes tenho ideias, felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
C
om que alguém escreve a valer o que nós aqui
traçamos?...



18/12/1934 (Álvaro de Campos)



Dá que pensar...



Aconteceu-me um poema!
Nasceu assim, devagarinho,
Inesperadamente
Nasceu em mim.
Sem estar à espera, em tom de surpresa…
Como a brisa suave do vento num dia de calor
Como oásis num deserto
Suave e terno, cresceu e morreu
Como uma onda no mar.
Navio afundado, para sempre guardado
No coração do oceano.





segunda-feira, 26 de maio de 2008

Comentário

Este comentário à Ode Marítima de Álvaro de Campos foi escrito já há algum tempo e decidi pô-lo também aqui. Não que eu seja grande apreciadora dos poemas de Álvaro de Campos, porque nem sou, prefiro o mestre Caeiro; mas este poema é de facto um daqueles que caracteriza este heterónimo. Se ainda não leram, façam o favor, eu espero...
O comentário não é de todo exaustivo nem era esse o objectivo; mais do que um comentário é uma leitura do poema. Se frustrar as vossas expectativas, peço desde já as minhas sinceras desculpas. Continuem a ler e a visitar este blog porque algum dia até pode sair qualquer coisa de jeito.

“Sozinho, no cais deserto”, o sujeito poético viaja no tempo e no espaço. O Mar chama-o (e quem consegue resistir-lhe?) e leva-o para Longe, para o Indefinido, para aquilo que não está lá mas que ele vê através da Imaginação, perdendo-se no novelo de lã do seu passado, envolvido no “sonho das águas”.
Aos poucos o sujeito poético vai deixando o cais, “o volante começa a girar, lentamente” e a viagem começa. Deixa o mundo real, o que está perto.
A antítese entre o longe/perto e o passado/presente marca todo o poema. O conflito interior simboliza o paradoxo de amar a “civilização moderna”, de beijar “com a alma as máquinas”, de ser “o engenheiro”, “o civilizado”, “o educado no estrangeiro”, mas querer fugir de tudo isso, deixar aquele cais e partir para longe, num mar longínquo que não se conhece, “da época lenta e veleira das navegações perigosas, / da época de madeira e lona das viagens que duravam meses.” Por um lado “o medo ancestral de se afastar e partir” (as âncoras do passado), por outro “o misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo” (o presente).
Envolvido no “sonho das águas” quer voltar ao tempo dos piratas, dos saques, das mortes, das aventuras marítimas: “Quero ir convosco (…) / ao mesmo tempo com vós todos / para toda a parte pra onde fostes (…) Fugir convosco à civilização! Perder convosco a noção da moral! (…) Ir convosco, despir em mim (…) o meu traje de civilizado.” Como na Ode Triunfal, temos outra vez o sensacionismo, a fragmentação do “eu”, querer sentir “todas estas coisas duma só vez pela espinha”.
Depois do êxtase, encontramos um Álvaro de Campos cansado e angustiado que sabe que “não pode agir de acordo com o seu delírio” e volta à infância. “Infância feliz (…) que nunca mais tornei a ter (…) boneco que me partiram.” A saudade de um tempo em que foi, ou pensou que foi, feliz.
Já quase no fim do poema, o sujeito poético volta ao presente, ao mundo real, àquilo que está perto – “só o que está perto agora me lava a alma” – o volante abranda. A viagem a tempos passados está a chegar ao fim. Deparamos com um Álvaro de Campos moderno, actual, que diz que as máquinas também têm poesia, que diz que tem “o orgulho moderno de viver numa época onde é tão fácil / misturarem-se as raças, transporem-se os espaços”.
O volante pára, o navio perde-se no horizonte, e depois? Nada, “só eu e a minha tristeza / E a grande cidade agora cheia de sol / E a hora real e nua como um cais já sem navios.”



Podem comentar, criticar, sugerir... as vossas palavras serão sempre bem-vindas!!! Assim como a vossa visita, muito obrigada!!!