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sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Leitor e a Leitora_interpretações

O Homem que Lê
Eu lia há muito. Desde que esta tarde

com o seu ruído de chuva chegou às janelas.
Abstraí-me do vento lá fora:
o meu livro era difícil.
Olhei as suas páginas como rostos
que se ensombram pela profunda reflexão
e em redor da minha leitura parava o tempo. —
De repente sobre as páginas lançou-se uma luz
e em vez da tímida confusão de palavras
estava: tarde, tarde... em todas elas.
Não olho ainda para fora, mas rasgam-se já
as longas linhas, e as palavras rolam
dos seus fios, para onde elas querem.
Então sei: sobre os jardins
transbordantes, radiantes, abriram-se os céus;
o sol deve ter surgido de novo. —
E agora cai a noite de Verão, até onde a vista alcança:
o que está disperso ordena-se em poucos grupos,
obscuramente, pelos longos caminhos vão pessoas
e estranhamente longe, como se significasse algo mais,
ouve-se o pouco que ainda acontece.

E quando agora levantar os olhos deste livro,
nada será estranho, tudo grande.
Aí fora existe o que vivo dentro de mim
e aqui e mais além nada tem fronteiras;
apenas me entreteço mais ainda com ele
quando o meu olhar se adapta às coisas
e à grave simplicidade das multidões, —
então a terra cresce acima de si mesma.
E parece que abarca todo o céu:
a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" Tradução de Maria João Costa Pereira


A Leitora
A leitora abre o espaço num sopro subtil.

Lê na violência e no espanto da brancura.
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa.
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco.
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra.

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento.
Desce pelos bosques como uma menina descalça.
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva
em chama de água. Na imaculada superfície
ou na espessura latejante, despe-se das formas,

branca no ar. É um torvelinho harmonioso,
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira
na sede obscura de palavras verticais.
A água move-se até ao seu princípio puro.
O poema é um arbusto que não cessa de tremer.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Escrever

Em primeiro lugar tenho que vos pedir desculpa, caro Leitor e cara Leitora. Estava cansada, precisava de férias e a preguiça para escrever era mais que muita. Desculpa se me descuidei de ti, tu leitor, tu leitora, que vives de textos, de frases, de palavras… Desculpa se me esqueci de ti durante estes dois meses. Perdoas-me? … Espero que sim.

Sabes, nem sempre é fácil escrever… precisamos de um tema, de imaginação, de disposição… enfim… um pouco de tudo e um pouco de nada. Diante desta página em branco (ou em rosa!) as palavras fluem, insistem em sair destas mãos e carregar no teclado. Insistem em sair de mim e ser autónomas. Insisto em escrever mesmo que não tenha nada para dizer, mesmo que o pensamento pare e eu não consiga pensar em nada, mesmo que a preguiça me diga que são horas de dormir, mesmo que a vontade seja ir para o sofá e ver televisão.
Mas afinal por que escrevemos? Já pensaste nisso, Leitor? Leitora? Escrevemos porque não conseguimos suportar o peso das palavras e nos queremos ver livre delas? Será que nos sentimos presos e escrever é uma forma de liberdade? Será a liberdade sinónimo de eternidade? Serei eterna se for livre, se me despegar das palavras e as puser no papel? Conhecemos muitos escritores graças às suas obras, um pouco deles ainda perdura na memória dos homens porque perdura nas páginas de um livro. A marca que pomos no papel, na folha em branco, no ecrã rosa poderá ela ficar para sempre? Talvez não, mas creio que marca sempre quem lê.
E afinal como escrever se não nos ocorre nada? A angústia de muitos escritores perante a primeira folha, como começar? É o incipt, o princípio, o passar da fronteira, que muito angustia quem escreve. Tantas são as formas de passar para o lado de lá, mas nunca sabemos ao certo qual a porta que utilizamos. É como uma porta mágica, que aparece e desaparece, para aparecer noutro lugar, igual ou diferente, ou não aparecer jamais… é uma oportunidade única, um único momento. E só temos uma possibilidade de embarcar nessa viagem que nos leva a Fantasia… a terras longínquas que não se conhecem, à terra sem fronteiras… porque a imaginação não tem fronteiras...